domingo, 9 de março de 2014

Textos Incompletos:. Primeiro, O carvalho.

1996
Em um terreno abandonado, na Alameda das Cerejeiras, 305, um homem jovem, com aproximadamente vinte e sete anos, se preparava para assinar o contrato. Que tornaria seu, aquele pedaço de terra.
Em breve aquele matagal poderia ser aparado... Ou, quem sabe, poderia plantar algumas tulipas, pois sua noiva, Cecílie, adorava flores. A propósito, seu nome era Charles. 
Observava a paisagem perdido em pensamentos. A alameda recoberta de flores, o céu azul, a grama verdíssima. Os muros cinza caindo aos pedaços, o portão pendia para um lado. Os pequenos cacos de vidro coloridos, não eram empecilho para ninguém, como não foram para o gato que acabara de pular o muro. Sentava-se em um tronco de madeira, a sombra de um grande carvalho. Não entendia como uma árvore daquelas fora nascer ali em meio a pés de jambo e goiaba.
Ouviu um movimento leve e virou-se. Seu Frederico, o atual dono daquele terreno, lhe cumprimentava enquanto observava, com desdém, o portão aberto.
Cumprimentaram-se e Charles pegou a caneta do bolso, era azul. Colocou os óculos de leitura e revisou as duas folhas. Assinou-as e entregou os papéis de volta a Frederico. Que levantou-se, dizendo que estava atrasadíssimo, ou coisa parecida, e foi-se embora.
Rápido, fácil.
Tinha dinheiro, tinha um terreno, tinha uma ideia... Tinha uma vida para construir.
O gato aproximou-se do carvalho, eriçou o pelo e virou de costas.

2000 (abril)
Amanda disparava pelos corredores do hospital, alcançando o máximo de velocidade que suas pernas lhe permitiam. Sua visão estava obstruída pelas lágrimas. Era trágico, não poder se despedir do próprio filho.
Durante seus cinquenta e sete anos, sempre soube que um dia teria de se despedir dos familiares. Quando Charles nasceu, ela se imaginou observando-o, deitada em uma maca, com sua visão desvanecendo. Não o contrário. Seu marido sumiu um dia, quando foi "pescar um peixão", e nunca mais apareceu. Nem sua mala que supostamente seria "emprestada a um amigo".
Lembrava como se fosse hoje do dia frio em que Charles lhe apresentou Cecílie. Era perfeita. Essa seria sua família. Teria netos, muitos netos. Tricotaria roupinhas para seus netos, seria a mãe companheira, a sogra tolerante, a avó divertida. Esta seria sua vida.
Quando viu a casa que seu filho construiu, vibrou de alegria, era simplesmente linda .
Mas toda a sua vida desmoronou, em apenas meio minuto. 
"Charles... Está morto. O funeral vai ser daqui a dois dias."

Ela olhou para o rosto do filho... Parecia cera.
Nunca havia ido a um funeral, exceto o da sua mãe. Por ser muito nova lhe deixaram longe do caixão.
Caiu de joelhos, deixou os braços penderem ao seu lado. Catarro escorria do seu nariz, seus cabelos desgrenhados lhe davam aparência de uma zombie.
Não queria saber a causa da morte, não queria se despedir. Não havia porque se despedir. Ele não poderia ter morrido. 
Respirou fundo, deu meia volta e saiu daquele lugar.


2000 (junho, Domingo)
Cecílie estava atordoada. Apoiava-se na parede do banheiro com um teste de gravidez na mão. Positivo.
Respirava rapidamente, seu coração palpitava. Dois meses.
O médico havia lhe alertado para a gravidez de risco mas ela não lhe escutou. Os remédios para depressão deviam ser suspendidos. Era isso ou... Um aborto.
A casa que Charles construiu acabava de ser comprada por um casal animadinho de quem ela não gostou nem um pouco.
A jovem foi até seu quarto. A TV ligada mostrava um hospital. Saídas lotadas, uma maca... Um homem morto. Vinte e sete anos. Overdose.
Sem pensar duas vezes, pois não queria mudar de opinião, puxou a terceira gaveta do seu armário e remexeu até encontrar uma caixa azul. Pegou uma das quarenta e duas mensagens de suicídio, sua preferida. Releu:
Querida Amanda,
Você sempre foi a melhor sogra que alguém poderia querer. Foi como uma mãe para mim.
Só queria lhe dizer que, não existe possibilidade de que eu continue aqui. Reencontrarei Charles e sugiro que faça o mesmo. Seus remédios são mais fortes que os meus, não passe sua vida dopada.
Com carinho, Cecílie.
Pegou a caneta e rabiscou "e mais alguém" ao lado de seu nome.
Enrolou o teste de gravidez no papel e deixou em cima da cama.
Seu lugar preferido da nova casinha minúscula era a sala. Mais propriamente a mesa da sala.
Pegou seus remédios na primeira gaveta e despejou no liquidificador. Colocou suco de laranja em caixa, seu favorito. Ligou o som na música, Gloomy Sunday. Tomou a mistura, deitou na mesinha de plástico. Fechou os olhos. Sentiu algo no útero, uma pontada forte de dor. Gritou e olhou. Sua barriga coçava, ela sentiu um enjoo forte. Tossiu, vomitou. 
Gritou horrorizada ao ver seu vômito tingido de vermelho. Se recusava a viver, queria interromper a dor. Puxou uma faca e enfiou no coração, retirou e tentou golpear a garganta, mas lhe faltou forças. 
Ficou, durante seus últimos momentos, caída no chão, sem conseguir se mexer, se afogando numa poça do próprio sangue.


2003
Um casal aguava as tulipas amarelas de sua casa na Alameda das cerejeiras, era a última vez que iriam ver a casa, e também, um ao outro.
Ele se chamava Jamil, era um hippie, apaixonado pela natureza.
Ela se chamava Rory, era uma professora, apaixonada pela natureza.
Eles se conheceram naquela mesma Alameda, ela era filha de um empresário rico, e comprou aquele imóvel para viverem juntos. Se casaram em um cartório próximo.
A vizinhança era agradável, e a casa tinha um maravilhoso carvalho, que era o xodó do casal.
Tudo corria as mil maravilhas, até que Rory ficou grávida. 
Quando soube, não quis contar a Jamil tão cedo. Preferia esperar mais um mês.
Ele porém, vinha andando muito deprimido. Sua esposa já não era alegre e atenciosa como antes.
Jamil conheceu alguns amigos, que lhe apresentaram o duvidoso mundo das drogas.
Ele sabia que Rory jamais iria concordar com isso se não soubesse do que se tratava o assunto. 
Passou a injetar heroína em sua esposa, todas as noites. Cada dia aumentava a dose.
Ela não desconfiava, sentia-se estranha e atribuía isso a gravidez.
No mês seguinte contou a Jamil que estavam esperando um bebê. E ele suspendeu imediatamente a aplicação das drogas, sem saber oque fazer.
Mas a abstinência causava distúrbios e pertubações em Rory, e Jamil não via saída senão injetá-la de vez em quando.

O bebê nasceu morto. A mãe foi a funerária e levou o cadáver da criança para casa. Escondeu dentro do tanque. Quando seu marido dormiu, ela enterrou o pequeno corpinho embaixo do velho carvalho. Entre o tronco da árvore e um toco velho. A pele estava gelada, ela deitou o menino em seu colo, e abriu seus olhos com o dedo. Opacos. 
Jogou o corpo dentro do buraco fundo e cobriu tudo com areia. A pá foi parar em um terreno abandonado do lado da casa. 
Rory nunca mais seria a mesma. Nem Jamil, que lhe observava pela janela.


2010
Ernesto, dono de uma concessionária, acabava de se livrar de uma terrível dor de cabeça.
Há sete anos havia comprado uma casa, ou melhor, um terreno de um casal hippie. Pelo que entendeu estavam se divorciando e precisavam da grana.
No início, pensou em destruir tudo e construir outra concessionária, ou dar a casa de presente para o único filho. Ou, quem sabe, fazer do terreno uma plantação. Poderia levar seus futuros netos lá e diminuir o imóvel, de forma que imitasse a casinha onde viveu sua infância.
O problema é que não compensaria os gastos que teve com  compra, e por isso deu graças a Deus quando surgiu um homem interessado no aluguel do imóvel, agora caindo aos pedaços.
Seu nome era Neil, tinha uma esposa, Jezzaidy (pronuncia-se Iêzaidê,) e uma filha, Lizza.
Neil, tinha vindo para a cidade de Sleep Blue com a esposa, a filha, e os pais. Tárcio e Nilda.
Juntos, eles restauraram a casa e o terreno.

Lizza, a filha do casal, estava muito feliz, como toda criança. Ia ganhar um irmãozinho.
Ela tinha apenas dez anos, mas era muito curiosa. Poderia ser jornalista quando crescesse.
Conheceu, na escola, uma menina de treze anos chamada Cassandra. Era muito inteligente, e queria ser jornalista também.
As duas andavam sempre juntas. Lizy e Cassy gostavam de conversar.
Se viam na escola todos os dias. Passavam o intervalo juntas. Estudavam juntas.
Lizy visitava Cassy sempre, mas as visitas não eram retribuídas.
Cassandra sentia um terrível mal-estar sempre que entrava na casa de Lizza. Já havia vomitado no tapete de entrada uma certa vez.

As duas amigas começaram a tentar descobrir o motivo do mal estar. Lizza acreditava que era tudo puramente psicológico, já que apenas a amiga sentia isso.
Cassy, por sua vez, acreditava que havia algo muito errado naquela casa, que lhe dava arrepios sempre que passava por perto.

"Lizy, eu já vi em sua casa, um homem aguando tulipas, escutei uma criança chorando, e quando fui dormir aquela noite, tenho certeza de que vi uma professora na janela."
A outra ria:
"E como sabe que era uma professora? Ela segurava uma régua na mão e um piloto na outra?"
"Sim!"
Determinada a descobrir o que se passava na casa de sua amiga, Cassandra propôs uma investigação.
Eram jornalistas, eram estudantes, eram habilidosas. Iam conseguir.
No fim de semana seguinte, Lizy foi de manhã cedo visitar Cassy.
Pranchetas, gravador, filmadora, câmera instantânea, papéis, canetas, jornais etc.
Um notebook, e um garoto.
"Lizy, esse aqui é o Robbie, é da minha sala. Se meu palpite for certo (claro que é), ele será a melhor pessoa para nos ajudar"
Cumprimentaram-se. Lizza simpatizou imediatamente.
Os três pegaram os equipamentos e colocaram em bolsas (no caso de Robbie, mochila).
Seguiram andando. Primeiro entrevistado? Óbvio, os vizinhos.

O vizinho da frente era um senhor de meia-idade que sabia todo tipo de jogos com cartas. Recebeu os meninos com uma baforada de charuto na cara, perguntando se eles viram sua esposa, Dr. Emma, e se aceitavam uma cerveja.
Não sabia muito da casa, não gostava dos primeiros donos, sumiram sem aviso e eram um tanto antissociais.

Do lado esquerdo havia um terreno abandonado, coberto de lixo. E adiante um mercado. Deixariam esse para depois.
Do lado direito havia uma outra casinha.
Bem cuidada, cor-de-rosa, com flores brancas na frente.
A dona era a Sr.Gertrudes, ela se mudou antes mesmo de o terreno ser comprado. Morava ali desde... Sempre.
Era médium, tinha a capacidade de ver espíritos, ouvir, e falar com alguns deles, em determinadas ocasiões.
Deixou bem claro para os meninos que escutava um choro de bebê toda noite. Ouvia também uma mulher engasgando. Disse que, por muito tempo não quis acreditar nos motivos. Mas estava bem claro, aquela casa podia não ser cenário de morte, mas estava ligada a muitas delas.

Os três saíram tremendo da casinha rosa.

Naquela noite, depois que Robbie foi para casa (ele morava na mesma rua que Cassandra), as duas amigas ficaram especulando porque aquela senhora tão simpática não resolvia o problema da casa.
"Talvez porque ela não possa, Cassy." 

No dia seguinte, os três foram novamente visitar a Sr. Gertrudes. Ela disse-lhes que não podia fazer nada, para "desligar" mortes. Nem sequer tinha uma informação concreta, e ficou chocada com o fato de os meninos terem se impressionado com isso.
Disse a eles que, se a Cassandra ouvia e via, ela também devia ter alguma sensibilidade. E talvez ela fosse a chave para descobrirem oque se passava.

Os três foram até o mercado e perguntaram sobre a casa. O dono porém, deixou claro que era o novo proprietário do local. O antigo estava em outra cidade...

Restava, apenas, o homem que vendeu a casa. Decidiram que iriam lhe procurar no dia seguinte, após a aula.
Lizza estava encarregada de perguntar a seus pais sobre isso. Mas antes que pudesse sequer formular a pergunta. Recebeu uma informação que mudaria o rumo de suas investigações.





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